DO QUE SE CONSEGUE PELAS PRÓPRIAS FORÇAS (PARA B.C.)

1.

“Como você é linda! Parece nosso planeta, redonda e cercada por pássaros”
(Chris Marker, Vive la baleine!, 1972)

“Uma baleia imensa, vomitada do mar azul (que os deuses não deixem ser um mau presságio!), despejada na praia perto de Katwijk. Que terror dos oceanos profundos é uma baleia, quando é lançada pelo vento e por suas próprias forças para a costa, tornando-se prisioneira na terra seca. Nós traduzimos essa criatura para o papel, e fazemo-la famosa, para que as pessoas possam falar dela”.
(inscrição numa gravura de Jacob Mathan, de1601, representando uma baleia encalhada em Katwijk, na Holanda)

As imagens feitas por homens perplexos e apaixonados diante dos montros trazidos por suas próprias forças, por desígnio divino ou gesto demoníaco ao lugar das gentes, à beira da praia (e sabe-se lá o que precipitam por sua presença monumental: terremotos, incêndios, assassinatos e outros apocalipses…), as séries de gravuras que o herege século XVII não cansou de produzir do inexplicável suicídio animal fundindo precisão anatônmica e imaginação, fascínio proto-naturalista e o espanto místico diante de um mundo a mercê dos deuses encheram meus cadernos e arquivos por cerca de um ano: Jacob Mathan, Jan Wierix, Willem van der Gouwen… até que quis fazer da minha baleia um monstro frágil, que apesar de sua vontade horizontal arranja um jeito de manter-se em pé, de carregar a si mesmo, assim mesmo com as entranhas à mostra, o verso emendado de fita, apoiado por pinos deformados à explícita a treliça de madeira mal pintada, descascada, de réguas que um dia já foram uma gigantesca torre de energia, ela mesma, aliás, assim fatiada em módulos humanos de 5 metros, e que agora suportam a baleia outodoor, cortina teatral, diorama. A madeira e o papel justapostos, as partes que parecem prestes a se soltar, e o pó negro a exalar do mostro que foi parar ali numa noite sem testemunhas. É um desenho grande demais para um homem só, que quatro, seis ou oito braços devem por em pé ou deitar no chão, de carvão, navalha, cola, cera e óleo, e que começa sem janela, sem tamanho determinado, crescendo de pedaço em pedaço, chegando ao limite de sua extensão ao tocar as paredes, desenho que não consigo ver de longe, e cujas partes destroem e se refazem diariamente, que não é projeto de uma idéia, mas de um termo, que engole impiedosamente um cardume de outros desenhos malsucedidos, uma baleia cujo corpo é montado com papéis pisoteados por meses, que circularam livremente daqui pra lá até se fixarem nesse corpo fabulado.

  1. O slide show (MEME) reúne representações do suicídio produzidas entre a Grécia antiga e o início do século XX. Por autocensura dos veículos da grande imprensa (o temor do contágio, e, talvez, ainda o resíduo de uma antiga condenação cristã ao suicídio), as histórias e imagens dos suicidas tendem a escapar das páginas dos jornais. Afinal, o que diria uma fotografia de um corpo morto por sua própria consciência, a não ser o mesmo nada que dizem todas as fotografias de cadáveres ? Mas minhas prateleiras e pastas estão cheias de imagens que tentam construir sentido para tais gestos: além de Vasos Gregos e iluminuras medievais, Giotto, Artemisia, Rembrandt, Hogarth, Goya, Manet, Pissarro, Georg Grosz, Karl Arnold … elegias póstumas, reações no calor da hora, descrições de misérias pessoais e de mundos terríveis mortes de vergonha, de desespero, de amor, de culpa, de orgulho. Nessas tentativas de dar conta do caráter inexplicável desse gesto extremo encontrei belos exercícios de imaginação e descrição daquilo que não é e não pode ser visto, mas que, ainda assim, podemos tentar representar.

MEME

MEME
(Do que se consegue pelas próprias forças)
(Bootstrap)
Para B.C.

Drawing (9m x 2.5m) , wood structure, slideshow (32 images, loop)
The drawing (Charcoal, collage and wax on mended paper) is based on the 17th century imagery of stranded whales. This “billboard” drawing is connected to slideshow, which shows series of graphic (non photographic) representations of suicides. In past centuries, stranded whales have been related to the anticipation of catastrophes; for an animal like this could only come to land by way of its own will.

Exhibition view: Boletim, Galeria Millan, 2013